FELIZ NATAL – por Fátima Cardoso – escritora de Joinville – AL

O NATAL DA BISA GUIDA

O céu descortina a noite, e o dia se mostra com sorriso tímido.

Dona Guida caminha lentamente até a varanda, tenta não fazer barulho para não acordar a família. Senta-se na cadeira de balanço, aprecia com carinho as folhas serenadas no jardim. Contempla o ypê amarelo que seu pai plantou, sorri para ele como sorri para um velho amigo. Aos noventa e três anos, Dona Guida fez deste gesto um ritual.

Sem que ela perceba, Analú, sua bisneta de treze anos, a observa com carinho.

– Está sentindo dor, bisa? – Pergunta ela, ao perceber lágrimas em seus olhos.

– Bom dia minha querida! Acordei você com o barulho da bengala, minha filha?

É muito cedo, volta pra cama!

– Vou ficar com a bisa, – diz ela arrastando um banco.

O sol já desponta no horizonte e as cigarras, iniciam o canto em coro!

­­- O canto das cigarras me leva de volta à infância! – Dona Guida fala emocionada.

Meu pai dizia que, quando as cigarras cantam, anunciam a chegada do menino JESUS. Nessas épocas meu pai nos levava até a capoeira para colher barba-de- velho!

Analú arregala os olhos.

Dona Guida sorri.

– Capoeira, filha, é um lugar de mato ralo. Lá no sítio do meu pai, ficava no morro. Era festa para mim e meus dois irmãos, quando chegava o natal. Meu irmão mais velho subia na árvore e jogava a barba- de- velho para juntarmos. Ouço meu pai gritar com meu irmão: cuidado menino, não vá cair! Fechando os olhos, ela continua:

Voltávamos com a sacola cheia, a barba- de- velho e as frutas colhidas pelos caminhos. Meu pai colocava uma mesa de madeira, em destaque no canto da sala e montava o presépio

A barba- de- velho era colocada pelos meus irmãos, nos galhos secos do ypê, que meu pai cortava especialmente para fazer o presépio. Na estrebaria e na manjedoura, era eu quem sempre a colocava. Na noite de Natal minha mãe preparava um pires com pétalas. As vizinhas colocavam na soleira das janelas uma das outras para a troca de presentes.

 Os presentes eram pequenas lembranças, como sabonetes, esmaltes.

Eu e meus irmãos mal dormíamos na ansiedade do amanhecer, correr para o presépio e abrir os pacotes de presente. Quase sempre eu ganhava boneca de plástico e sem roupa. O Natal em que eu ganhava boneca com roupa e com cabelo, era ainda mais emocionante. Eu abraçava minha boneca com tanto amor! Dizia dona Guida, revivendo a emoção.

– Ah! Vocês estão aí? Pergunta a neta de dona Guida, ao chegar na varanda com uma caneca de café.

– Estamos sim mamãe, fazendo mais um tour nas saudades da bisa, diz Analú.

Dona Guida olha para o Ypê, que agora está mais amarelo, refletido pelo sol.

 Despede-se com uma piscada de um olho.

Publicado por associacaodasletras

Entidade que trabalha no fomento da escrita e da leitura.

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